23 de agosto de 2026

A grande noite da intolerância na campanha do impeachment, por Luís Nassif

Nem no período bárbaro da ditadura testemunhei clima similar ao que acometeu o país na longa noite da Lava Jato até o impeachment de Dilma.
Dilma Rousseff discursa no Senado - foto de Geraldo Magela - Agência Senado

O artigo relata abusos cometidos por autoridades durante a Lava Jato e o impeachment de Dilma, afetando universidades e políticos.
Casos incluem prisões injustas, censura judicial e perseguição a professores e estudantes em várias regiões do Brasil.
A repressão envolveu juízes, promotores, policiais e militares, com apoio da imprensa e ações contra opositores políticos.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Esta noite, haverá mais uma refeição das pessoas na sala de jantar. Como rezava a canção “Panis et Circenses”:

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“Mandei fazer
De puro aço luminoso, um punhal
Para matar o meu amor, e matei
Às cinco horas na Avenida Central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e em morrer”.

No computador, abro um velho mapa mental no programa Curio, onde armazenei todos os absurdos cometidos pelas pessoas na sala de jantar.

A imagem que me vem à mente é a do procurador de ar tranquilo, fotografado em seu gabinete, com o retrato dos filhos na estante. Imagino-o chegando em casa depois do expediente, tomando um banho quente, vestindo o roupão. Depois, senta-se no sofá, liga a TV no Jornal Nacional e se dirige ao filho:

— Filhinho, está vendo aquela pessoa que se atirou do último andar do shopping? Era um ex-reitor da UFSC. Foi o papai que conseguiu!

Nem no período mais bárbaro da ditadura testemunhei um clima semelhante ao que acometeu o país na longa noite que vai da Lava Jato ao impeachment de Dilma. A maldade estava no ar, tão intensa que se podia cortá-la a golpes de navalha.

Os abusos eram cometidos em todos os cantos do país por promotores, juízes, procuradores, delegados, jornalistas e militares.

A ditadura tinha os porões. Do nível da rua para cima, porém, nem ela conseguiu se equiparar a esses anos tenebrosos. O bafo quente dos abusos se espalhava por todos os ambientes. O mapa mental estava lá, como registro solitário e calado desses tempos de horror.

Cada aba do mapa guarda uma lembrança amarga.

Na primeira, a figura nobre da desembargadora Kenarik Boujikian, punida com censura pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por ter concedido, entre 2014 e 2015, 11 alvarás de soltura a presos que já haviam cumprido suas penas.

Em outra, o episódio em que, a pedido do ministro da Educação, Mendonça Filho, a AGU, o TCU e o MPF passaram a investigar a disciplina optativa da UnB “O golpe de 2016 e o futuro da democracia”, do professor Luis Felipe Miguel, chegando a cogitar improbidade administrativa.

Em Florianópolis, a Polícia Federal invadia o campus e levava presos o ex-reitor Cancellier e vários professores, sob acusações que se revelaram falsas. Em Belo Horizonte, foi preciso que a comunidade universitária se mobilizasse no campus da Universidade Federal de Minas Gerais para impedir a prisão do reitor e de professores pela Polícia Federal.

No Rio, um juiz federal de Brasília autorizou a condução coercitiva de 40 funcionários do BNDES — entre eles, mulheres grávidas —, sob acusações falsas e sob os holofotes dos helicópteros da Rede Globo.

Ao mesmo tempo, o desgosto levava à morte um reitor da UFRJ, após uma série de acusações infundadas sobre a contratação de uma empresa para os coquetéis da universidade.

Apoiados pela imprensa, os terraplanistas saíram das catacumbas e cometeram toda sorte de atentados contra a ciência, como intimar um professor emérito a depor apenas por ter participado de um seminário sobre as propriedades medicinais da cannabis.

No Sul, as caravanas de Lula eram recebidas a tiros, e o Instituto Lula, alvejado por atiradores, sem que nada fosse apurado. O mesmo juiz que ordenara a condução dos funcionários do BNDES decretou o fechamento do Instituto Lula e a cassação do passaporte do ex-presidente.

Ainda no Sul, o desembargador Favretto, de plantão, ordenou a soltura de Lula, mas dois colegas de tribunal, Thompson Flores e Gebran Neto, atropelaram todos os procedimentos para desautorizá-lo.

Enquanto isso, em São Paulo, um delegado da Polícia Civil invadia a casa de um dos filhos de Lula, em um condomínio, com base em uma denúncia anônima, e um aparato policial invadia a Escola Florestan Fernandes, assustando crianças, mulheres e idosos.

Em Duque de Caxias, uma juíza leiga mandou algemar a advogada negra Valéria Lúcia dos Santos.

Nas eleições de 2018, um grupo de presidentes de Tribunais Regionais Eleitorais, articulado em um grupo de WhatsApp, ordenou que a Polícia Militar entrasse em diversas universidades federais para impedir manifestações de professores e alunos.

Em São Paulo, um jornalista denunciava uma professora de psicologia septuagenária por orientar uma tese sobre redução de danos do ecstasy, e a Fapesp cortava a bolsa da aluna.

No Paraná, um delegado exibicionista convocava 200 colegas de todo o país para uma mera operação contra irregularidades na fiscalização sanitária. O mesmo delegado, no Rio de Janeiro, exibia a presa: o ex-governador do Estado, Sérgio Cabral Filho, algemado nos pés e nas mãos.

Estudantes que ousaram protestar contra o impeachment, em São Paulo, foram alvos de um espião do Exército que, em comportamento indigno, aproximou-se do grupo por um aplicativo de namoro. Os rapazes acabaram denunciados por um promotor inclemente e por uma juíza cruel.

Um pouco antes, a pretexto de instalar uma escuta na Papuda, uma juíza autorizou um grampo que alcançava até o Palácio do Planalto. Enquanto isso, um juiz corregedor sádico impedia que José Genoino, recém-submetido a uma cirurgia cardíaca delicadíssima, se tratasse em uma clínica.

E ganhavam manchetes os juízes que algemavam presos nas audiências de custódia para que não roubassem canetas.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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8 Comentários
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  1. Juzzé

    19 de agosto de 2026 8:53 am

    CONCLUSÃO.:NG PUNIDO,STF ACUADO,LULA ELEITO E SALVANDO A PELE DAS INSTITUIÇÕES LIVRANDO DO CAOS GENERALIZADO NOSSO PAÍS !!!

  2. emerson57

    19 de agosto de 2026 9:55 am

    Recordar é viver.

  3. MarceloJuzésemChulé

    19 de agosto de 2026 10:16 am

    Dilma a presidenta de banco e MUITO ROUBAFA nas eleições passadas deveria entrar de cabeça nestas eleições houve no País uma esquematixacoa de setores da música (sertanejos)judiciário,politicis e empresários visando mudar as estruturas do País à força da manipulação,em parte conseguiram,enfraqueceram as representações e interesses da sociedade civil em geral e AIMENTARAM VERTIGINISAMENTE desigualdes no Brasil aonde cupulas e elites de vários setores dispararam nos rendimentos aonde corre OCEANOS DE DINHEIRO em detrimento da coisa pública onerando em muito o País com os parasitas especuladores de juros e preços aff é um efeito mórbido silencioso e muito escondido pelas midias bilionarias mimadas dominantes de quase tudo no Brasil sempre.colocando o culpado errado para ocupar a mente dos fracos estamos vivenciando os efeitos colaterais do golpe na Dilma aonde quase ng ganhou e isto muito comprovado com as crises orçamentárias e falências de nossos empresários seja pelos juros ou não e tudo escondido pela midia nazista destruidora e concentradora de renda apoiados pelos seus funcionarioxinhos do jogo sujo ao fim é só o q são apenas isso aff !!!

  4. Gaspar Alencar

    19 de agosto de 2026 11:43 am

    Além do golpe – o outro objetivo foi desestabilizar as empresas brasileiras ( que precisariam e precisam se modernizarem) foi abrir caminho para as empresas yankes.

  5. Eduardo Ramos

    19 de agosto de 2026 1:12 pm

    Nassif, torço para que um dia o GGN ou algum outro grupo jornalístico faça um documentário específico sobre as ações mais imundas e selvagens desse período, dando nome aos bois, para que essa gente fosse eternizada em sua vergonha sem fim….

  6. Aroldo De Souza Silva

    19 de agosto de 2026 2:13 pm

    Excelente artigo, Luis Nassif!
    Na época, escrevi uma música, que gravei em 2019, refletindo sobre essa loucura que estava acontecendo.

    https://youtu.be/IxXm5GF-BBM?is=j2vR1eMe_uGiU5ax

  7. Djalma Oliveira

    19 de agosto de 2026 5:08 pm

    Não houve nenhuma loucura. Houve método e ainda há. A meta da rede Globo era apagar Lula da história e destruir o PT.
    Evidentemente, foi com supremo e todo o resto da camarilha de imundos que ainda hoje estão aí posando de vestais.
    De certo modo, eles conseguiram algum intento. Tem uma parte da população, especialmente do interior, que vota em qualquer coisa, desde que não seja do PT.
    A esculhambação promovida pela rede Globo foi eficiente.

  8. Silvio Torres

    20 de agosto de 2026 6:30 am

    E os americanos tendo orgasmos com os vira-latas lambendo suas mãos. Os vira-latas entregando a Petrobras, a Embraer, a Barreira do Inferno, o programa nuclear brasileiro, os grandes players do agro, a independência do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Cachorros de rua são assim mesmo. Levam pancadas, são humilhados, mas rastejam e balançam o rabinho quando os verdugos lhes atiram restos de comida.

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